A decisão do governo federal de elevar o imposto de importação sobre cerca de 1.200 produtos reacendeu o debate sobre o custo de vida no Brasil, especialmente no que diz respeito a eletrônicos. A mudança foi formalizada pela Resolução GECEX nº 852, de 4 de fevereiro de 2026, um ato administrativo que alterou as alíquotas do Imposto de Importação por meio de tabelas técnicas. Em entrevista exclusiva ao NP, Wallace Borges, mestrando em economia pela UFRJ, analisa a medida como negativa.
Embora o texto não utilize termos como “aumento” ou “taxação”, a elevação das porcentagens aplicadas a diversos códigos de produtos significa, na prática, que importar ficou mais caro, e esse custo tende a ser repassado ao consumidor final.
A resolução foi aprovada no âmbito do Gecex, órgão que integra a Câmara de Comércio Exterior e reúne representantes de diferentes ministérios. A condução política da medida está ligada principalmente ao Ministério da Fazenda, comandado por Fernando Haddad, e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Segundo o governo, o objetivo é duplo: aumentar a arrecadação e proteger a indústria nacional, reduzindo a concorrência de produtos estrangeiros.
O impacto, no entanto, vai além de uma discussão técnica sobre tarifas. Hoje, celulares, computadores, notebooks e outros eletrônicos deixaram de ser bens supérfluos e passaram a fazer parte da vida cotidiana da população.
Outro problema é que aumentar a arrecadação sem rever o novo teto de gastos não garante mais investimento social. Pelo Novo Arcabouço Fiscal, as despesas só podem crescer até 70% do aumento real da receita, com limite de 2,5% acima da inflação, o que impede o governo de gastar na mesma proporção do que arrecada. Ao mesmo tempo, a Constituição obriga a ampliação dos pisos de Saúde e Educação quando a receita cresce, o que pode fazer esses gastos ocuparem uma fatia maior do teto e reduzir o espaço para outras políticas sociais, como Bolsa Família, BPC e investimentos públicos.
Um aumento no preço de um celular de R$ 900 pesa muito mais para quem está no limite de conseguir comprá-lo do que para quem já adquire aparelhos de R$ 6.000. Por exemplo, para um entregador de aplicativo que depende do celular como ferramenta de trabalho, uma alta de R$ 100 ou R$ 200 pode significar adiar a compra, parcelar por mais tempo ou seguir usando um aparelho precário. Já para quem compra modelos mais caros, esse acréscimo costuma ser irrelevante no orçamento, evidenciando como o impacto da alta de impostos é desigual.
Para o economista Wallace Borges, o impacto será especialmente pesado para os mais pobres. “Sem dúvida, os produtos importados mais baratos que são consumidos pelos proporcionalmente mais pobres vão encarecer”, afirmou. Segundo ele, a medida acaba sendo punitiva para os trabalhadores, que, mesmo com algum alívio no Imposto de Renda, passam a enfrentar preços mais altos justamente em produtos que oferecem melhor custo-benefício. “A taxação vai impactar muito os consumidores. É uma péssima medida”, diz.

Wallace também contesta a tese de que a medida vá gerar ganhos fiscais relevantes. Para ele, a arrecadação adicional tende a ser limitada, já que a economia brasileira não apresenta dinamismo suficiente para sustentar crescimento via consumo. “A massa salarial ainda não demonstra capacidade de sustentar um crescimento econômico via consumo. Acredito que haverá um impacto bem ruim na economia caso essa medida não seja alterada em diversos pontos”, avalia.
Ao criticar o argumento da proteção à indústria nacional, o economista aponta um problema estrutural. “Diversos estudos mostram que empresas nacionais inovam pouco e, grosso modo, só se mantêm no mercado porque têm acesso facilitado aos recursos públicos do Estado”, afirma. Para Wallace, essa lógica cria um ciclo vicioso: “proteger a indústria nacional hoje nos faz ter que salvá-la daqui a alguns anos com milhões de reais e mais benefícios”.
Esse diagnóstico ganha peso quando se observa a estrutura produtiva brasileira. O Brasil não possui fábricas relevantes de celulares, computadores ou televisões, e a imensa maioria desses produtos é importada, total ou parcialmente. Mesmo quando há montagem local, os componentes essenciais vêm do exterior. Na prática, encarecer importações nesses setores não fortalece uma indústria inexistente ou pouco integrada, mas encarece bens essenciais para a população e para o funcionamento da economia.
Por fim, Wallace alerta para o risco político e econômico da decisão. “É um risco gigantesco ampliar preços em ano eleitoral. Proteção de mercado demanda prazos, metas bem estabelecidas e mecanismos de monitoramento. Não pode ser feito dessa maneira”, conclui. Para ele, sem uma política industrial clara e coordenada, a taxação tende a gerar mais custos sociais do que benefícios econômicos.
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