Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) aponta que a diversidade genética da população brasileira pode estar associada à longevidade extrema. A pesquisa, publicada na revista científica Genomic Psychiatry, analisou o material genético de idosos centenários e supercentenários e identificou variantes raras que podem contribuir para maior resistência a doenças e melhor qualidade de vida na velhice.
O trabalho faz parte do projeto Genoma USP, vinculado ao Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da universidade. Inicialmente, os cientistas investigaram três idosos com mais de 110 anos que se recuperaram da Covid-19. A partir desses casos, o estudo foi ampliado e passou a incluir mais de 160 centenários brasileiros, entre eles duas pessoas com mais de 110 anos.

Entre as participantes estava a Irmã Inah Canabarro Lucas, reconhecida como a mulher mais longeva do mundo até sua morte, em abril de 2025, aos 116 anos. Os voluntários passaram por exames de sangue, análises genéticas e avaliação do sistema imunológico, permitindo observar características associadas à resistência a infecções e ao envelhecimento saudável.
Os pesquisadores destacam que muitos dos participantes viveram grande parte da vida em regiões com acesso limitado a serviços de saúde. Esse dado, segundo o estudo, oferece uma oportunidade rara de investigar mecanismos biológicos de resiliência humana para além de intervenções médicas, em um país marcado por desigualdades socioeconômicas no acesso ao cuidado.
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Uma das principais conclusões é que a miscigenação brasileira, resultado da ancestralidade europeia, africana, indígena e asiática, gera uma das maiores diversidades genéticas já registradas. Foram identificadas mais de oito bilhões de variantes genéticas que não aparecem em bancos de dados internacionais. Essa singularidade pode revelar genes protetores ainda desconhecidos em populações mais homogêneas da Europa e da América do Norte.
O estudo também observou agrupamentos familiares de longevidade extrema, indicando que irmãos de centenários têm probabilidade significativamente maior de alcançar idade avançada, reforçando a influência genética nesse processo.
Dados internacionais de longevidade mostram que o Brasil abriga alguns dos homens e mulheres mais velhos do mundo. Entre os centenários analisados que contraíram Covid-19 em 2020, foram identificados níveis elevados de anticorpos e proteínas ligadas à imunidade inata, sugerindo respostas imunológicas diferenciadas.
Segundo os autores, os resultados reforçam a importância de incluir populações miscigenadas em pesquisas genômicas globais. A ampliação desses estudos pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de envelhecimento saudável e para reduzir desigualdades históricas na produção científica em saúde.










