Terreiro de candomblé é vandalizado com pichações religiosas em Salvador

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Terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza é alvo de ataques religiosos por Sora Maia/CORREIO

O terreiro de candomblé Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, localizado no bairro de Cajazeiras XI, em Salvador, foi alvo de vandalismo e intolerância religiosa na madrugada do último sábado (17). A fachada do espaço sagrado, ligado à tradição da família africana mais antiga a chegar ao Brasil, foi pichada com tinta vermelha com as palavras “Assassinos” e “Jesus”. Além das ofensas, a ação provocou danos materiais à estrutura do templo.

O sacerdote Tata Mutá Imê, responsável pelo terreiro há 33 anos, afirma que nunca havia enfrentado situação semelhante. Ele conta que soube do ocorrido ao chegar ao local pela manhã. “Quando vi o portão e as paredes pichadas, foi um choque. Um desrespeito total. Não é apenas um dano físico, é uma invasão ao nosso território sagrado”, declarou em entrevista ao jornal Correio 24horas.

Terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza é alvo de ataques religiosos por Sora Maia/CORREIO

Após o ocorrido, Tata Mutá registrou boletim de ocorrência e prestou depoimento na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin). A Polícia Civil informou, em nota, que investiga os crimes de dano ao patrimônio e intolerância religiosa e realiza diligências para identificar os autores.

A repercussão do caso mobilizou lideranças religiosas e entidades do movimento negro. Para Tata Konmannanjy, presidente da Associação Cultural Bantu (ACBantu), o episódio evidencia a vulnerabilidade dos povos de terreiro. “Quem fez isso cometeu intolerância religiosa e invasão de território. É fundamental identificar e responsabilizar os autores”, afirmou em entrevista ao jornal Correio 24 horas.

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Já Ìyá Márcia d’Ògún, coordenadora do Conselho InterReligioso da Bahia e da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, destacou que o ataque fere direitos constitucionais. “A liberdade de culto é garantida pela Constituição. O que ocorreu não é apenas intolerância, é racismo religioso”, pontuou.

O terreiro atacado pertence à quinta geração da etnia Ambundu, originária da região de Luanda, em Angola, reconhecida historicamente como um dos primeiros povos africanos trazidos ao Brasil durante a escravização. Lideranças ressaltam que a agressão representa também um desrespeito à memória e à contribuição cultural dos povos de matriz africana na formação do país.

Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), afirma que ações como essa estão ligadas a interpretações distorcidas sobre práticas religiosas afro-brasileiras. “Há quem confunda ritos sagrados com violência, enquanto ignora práticas semelhantes em outros contextos. Isso revela como o racismo religioso segue presente na sociedade”, disse.

Como resposta, a comunidade do terreiro organiza uma caminhada simbólica para restaurar o espaço e reafirmar o direito ao culto. A data ainda será definida.

O caso segue sob investigação.

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