O governo de Ruanda afirmou que poderá retirar suas tropas da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, caso não haja garantias de financiamento internacional para manter a operação militar contra grupos insurgentes que atuam na região desde 2017.
A declaração foi feita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Ruanda, Olivier Nduhungirehe, que afirmou que a permanência das tropas ruandesas depende da continuidade de recursos destinados à missão. Segundo o ministro, a retirada do contingente ocorrerá se não houver garantia de financiamento sustentável para a operação.
“Não se trata de Ruanda poder retirar, mas sim de Ruanda retirar as suas tropas de Moçambique caso não seja garantido financiamento sustentável para as operações antiterroristas em Cabo Delgado”, afirmou Nduhungirehe em mensagem publicada na rede social X.

O posicionamento do governo ruandês ocorre em meio à aproximação do fim do financiamento da União Europeia à operação militar. O apoio europeu, que soma cerca de 40 milhões de euros ao longo de três anos, está previsto para terminar em maio.
Os recursos foram utilizados principalmente para apoio logístico às tropas ruandesas, incluindo equipamentos pessoais e transporte aéreo estratégico.
A possível interrupção do financiamento acontece em um momento sensível para a segurança da região. Cabo Delgado é palco de uma insurgência armada desde outubro de 2017, quando grupos armados associados ao Estado Islâmico iniciaram ataques contra vilarejos e instalações estratégicas.
Segundo estimativas de organizações internacionais e autoridades locais, o conflito já provocou cerca de 6.500 mortes e deslocou centenas de milhares de pessoas.
Atualmente, mais de 2.000 militares ruandeses atuam na província em cooperação com as forças armadas de Moçambique. As tropas têm papel importante na proteção de áreas estratégicas, incluindo o megaprojeto de gás natural liquefeito liderado pela empresa francesa TotalEnergies.
A petrolífera retomou em janeiro deste ano a construção do projeto, que havia sido suspenso por quase cinco anos após ataques armados na região.
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Nduhungirehe também criticou a postura de países ocidentais em relação à presença militar ruandesa em Moçambique. Segundo ele, Ruanda investiu recursos significativos e mobilizou tropas para estabilizar a região.
“Não investimos centenas de milhões de dólares e os nossos soldados não fizeram o sacrifício supremo para estabilizar esta região apenas para ver os nossos militares constantemente questionados ou sancionados pelos mesmos países que beneficiam da nossa intervenção”, afirmou o ministro.
Além da questão financeira, o governo ruandês também reagiu às sanções aplicadas pelos Estados Unidos contra as Forças de Defesa de Ruanda em razão do conflito na República Democrática do Congo.
Em Moçambique, o anúncio gerou preocupação dentro do governo. O porta-voz do executivo moçambicano, Inocêncio Impissa, afirmou que o país foi surpreendido com a possibilidade de encerramento do financiamento europeu.
“Antes mesmo de chegar a maio, teremos de ter clareza sobre o que efetivamente acontecerá. O anúncio foi um choque”, disse Impissa em declaração à imprensa em Maputo.
A porta-voz do governo de Ruanda, Yolande Makolo, reforçou que a continuidade da missão depende do reconhecimento e do apoio internacional. Segundo ela, a retirada das tropas pode ocorrer caso o comando militar avalie que a operação deixou de ser valorizada ou viável financeiramente.
“Caso o trabalho desenvolvido pelas forças ruandesas não seja valorizado, haverá razão para encerrar o acordo bilateral de combate ao terrorismo e retirar-se da região”, afirmou Makolo.










