A criação de programas de renda e trabalho voltados para mães solo é apontada como a política pública mais urgente por 62% dos moradores de favelas no Brasil. O dado faz parte da pesquisa Sonhos da Favela, divulgada pelo Data Favela em parceria com a Data Goal, e revela como autonomia econômica feminina está diretamente associada à redução da violência e à garantia de direitos nesses territórios.
O levantamento ouviu 4.471 moradores de favelas em todas as regiões do país, por meio de questionários enviados via WhatsApp com rastreabilidade em tempo real. A pesquisa mapeia aspirações, desafios e prioridades de uma população que movimenta a economia e utiliza tecnologias digitais, mas ainda enfrenta desigualdades históricas relacionadas à segurança pública, ao mercado de trabalho e ao racismo estrutural.

Entre os principais alertas do estudo está a situação das mulheres nas favelas. Sete em cada dez entrevistados identificam a violência doméstica e o feminicídio como os maiores desafios enfrentados pelas mulheres nesses territórios. Para a maioria dos respondentes, a resposta mais eficaz para enfrentar esse cenário é a emancipação financeira das mães solo, grupo majoritariamente responsável pelo sustento familiar.
“A pesquisa deixa nítido que a violência contra a mulher é a barreira mais cruel nos territórios. Garantir inserção digna no mercado de trabalho é dar a essas mulheres a chave para romper ciclos de abuso e protagonizar suas próprias histórias”, afirma Cléo Santana, copresidente do Data Favela.
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Os dados também expõem a instabilidade econômica como traço central da vida nas favelas. Apenas 25% dos moradores possuem trabalho com carteira assinada, enquanto 58% não contam com renda fixa mensal. Esse cenário é agravado pelo racismo estrutural: metade dos entrevistados afirma que a cor da pele impacta negativamente suas oportunidades de crescimento profissional.
Diante dessa realidade, 40% dos moradores defendem que o governo priorize programas de emprego voltados à população negra e amplie ações afirmativas na educação, como as cotas raciais. A demanda reforça a percepção de que desigualdades econômicas e raciais seguem interligadas no cotidiano desses territórios.
A pesquisa também abordou a segurança pública. Quase metade dos entrevistados, 47%, afirma que o principal desejo para 2026 é poder exercer o direito de ir e vir com tranquilidade. No entanto, a confiança nas instituições é baixa: cerca de quatro em cada dez moradores dizem não confiar em nenhuma força de segurança para protegê-los.
“O anseio por transitar sem medo não é um pedido de repressão, mas um clamor por um direito fundamental”, afirma Marcus Vinicius Athayde, copresidente do Data Favela. Segundo ele, os dados indicam a necessidade de reconstrução da relação do Estado com esses territórios, com foco em proteção efetiva e respeito.










