‘Quem é de axé vem para o samba’ diz Eduardo Paes ao negar intolerância religiosa no réveillon do Rio

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Paes também afirmou ser o prefeito que mais apoia a diversidade. Comentários do prefeito surgem em meio a decisão de montar um palco dedicado à música gospel, enfrentando polêmicas e investigação do Ministério Público Federal

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD) afirmou que “está havendo uma enorme discriminação com um gênero musical que acabou de ser reconhecido como patrimônio nacional pelo presidente Lula” ao se referir a polêmica envolvendo a decisão do munícipio em montar um palco dedicado à música gospel no réveillon da cidade carioca. Segundo o prefeito “Quem gosta de música gospel tem uma vibração diferente. Então, quem é de axé vem para o samba”.

Paes negou nesta terça-feira (30) que exista intolêrancia religiosa na decisão da prefeitura e afirmou que a população cristã representa uma parcela significativa da cidade e, até então, não frequentava as comemorações em Copacabana. A escolha passou a ser investigada pelo Ministério Público Federal (MPF), que apura se houve privilégio a uma religião na organização do evento.

Eduardo Paes nega intolêrancia religiosa e diz que quem for de axé deve ir pro samba em Copacabana – Foto: Arquivo/ Agência Brasil

“A gente não pode transformar um preconceito que de fato existe, que é absurdo e inaceitável, contra o povo de axé, em preconceito contra o povo cristão. Há uma parcela muito significativa da nossa cidade que gosta de música gospel e que quer e pode ter seu espaço. Esse público não vinha para Copacabana e agora vai vir, vai conviver com pessoas fazendo oferendas a Iemanjá. Isso é o sincretismo religioso do Brasil e da nossa cidade” , disse o prefeito.

Quando questionado sobre a priorização de uma religião em detrimento das outras, Paes afirmou ser ser o prefeito que mais apoia a diversidade religiosa e defende o povo de axé, sendo um frequentador da Lavagem da Sapucaí:

” É preciso tomar cuidado com isso. Está falando aqui o prefeito que mais apoia a diversidade religiosa, que mais defende o povo de axé e que enfrenta de forma contundente o preconceito no Rio de Janeiro. Nunca escondi de ninguém meu amor pelo samba. Vou à Lavagem da Sapucaí e, apesar de católico, recebo ali energias que até hoje não sei explicar. Vamos parar com essa conversa, porque não dá para combater um preconceito real e inaceitável criando outro contra o povo cristão” , concluiu.

Em nota, o Instituto Ori manisfestou repúdio as declarações de Eduardo Paes e relembrou que ” a festa do Réveillon, que hoje rende milhões em divisas e projeta o Rio para o mundo, foi gestada no seio das tradições afro-brasileiras. Foi a cultura umbandista e do candomblé que ofertou à cidade os símbolos que hoje são apropriados por todos, sem o devido crédito ou respeito: como o uso das vestes brancas como símbolo de paz e purificação; o rito de pular as sete ondas, súplica ancestral por abertura de caminhos; as oferendas de flores no mar, em devoção à Iemanjá.

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A instituição responsável pelo estudo da cultura afro-brasileira também se manifestou sobre a equidade de espaço público para as manifestações de fé desses mesmos grupos, segundo eles ” Não se pode
amar o “produto” cultural (o samba, o desfile, o lucro turístico) e desprezar ou silenciar os seus produtores e sua espiritualidade” .

Layla Silva

Layla Silva

Layla Silva é jornalista e mineira que vive no Rio de Janeiro. Experiência como podcaster, produtora de conteúdo e redação. Acredita no papel fundamental da mídia na desconstrução de estereótipos estruturais.

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