Queda do tabagismo no Brasil desacelera e pode comprometer meta para 2030

tabaco

Apesar da queda histórica no número de fumantes nas últimas décadas, houve aumento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens - Foto: Pexels

A proporção de fumantes no Brasil continua em queda, mas a velocidade dessa redução diminuiu nos últimos anos e pode comprometer a meta nacional de controle do tabagismo até 2030. É o que aponta uma pesquisa publicada em dezembro de 2025 na revista Ciência & Saúde Coletiva, com base em dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde.

De acordo com o estudo, a prevalência de fumantes no país caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023, uma redução média de 3,3% ao ano. Apesar do avanço, os pesquisadores alertam que o ritmo atual pode não ser suficiente para atingir o objetivo estabelecido pelo Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis (DANTs), que prevê uma taxa de 6,24% até 2030. Mantido o ritmo atual, a projeção indica que o país chegará ao final da década com cerca de 7,96% da população fumante.

cigarro eletrônico
Foto: Secretaria de Saúde de Alagoas

O Brasil é considerado referência internacional no controle do tabaco. Em 1989, cerca de 34,8% da população adulta brasileira fumava, segundo estudo publicado no Bulletin of the World Health Organization em 2007. Desde então, políticas públicas de saúde, campanhas de conscientização, restrições à publicidade e aumento da tributação contribuíram para a redução do consumo.

Para Deborah Carvalho Malta, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das autoras do estudo, a desaceleração observada nos últimos anos está relacionada a fatores políticos e econômicos.

Os anos de 2015 e 2016 foram marcados por intensa instabilidade política e crises econômica e fiscal, que levaram a medidas de austeridade, cortes orçamentários e limites aos gastos públicos. Esse contexto comprometeu o financiamento e a priorização de diversas políticas sociais, incluindo ações de saúde”, afirma em entrevista a CNN.

Entre os fatores apontados pelos pesquisadores estão a falta de avanços regulatórios recentes, o congelamento do preço dos cigarros entre 2016 e 2024, a redução de investimentos em fiscalização e o aumento do contrabando de produtos de tabaco.

Outro desafio para as políticas antitabagistas é o avanço dos dispositivos eletrônicos para fumar, como cigarros eletrônicos, vapes e pods. Esses produtos ganharam popularidade principalmente entre os jovens.

LEIA TAMBÉM: Imposto sobre ultraprocessados pode evitar 236 mil mortes no Brasil

A indústria do tabaco utilizou essa base inicial e investiu fortemente em marketing para vender um novo produto à base de nicotina, com opções de sabores e aromas atrativos, sobretudo para os mais jovens”, afirma Telma Antunes, pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em entrevista à CNN.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostram que o uso de produtos derivados do tabaco entre adolescentes aumentou de 10,4% para 14,8% entre 2015 e 2019, impulsionado principalmente pela popularização de cigarros eletrônicos e narguilé.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o tabagismo foi responsável por mais de 161 mil mortes no Brasil em 2020. Além dos impactos na saúde, o consumo de tabaco também gera custos elevados para o sistema público. Estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia estima que o impacto econômico do tabagismo chega a R$ 153,5 bilhões por ano.

Diante desse cenário, especialistas defendem o fortalecimento das políticas públicas de controle do tabaco.

“As campanhas públicas continuam sendo eficazes, mas precisam ser acompanhadas de fiscalização rigorosa, manutenção das proibições já estabelecidas e informações atualizadas sobre os riscos do cigarro”, afirma Deborah Malta.

Entre as medidas sugeridas estão o combate ao contrabando, maior regulação dos pontos de venda, restrições à comercialização perto de escolas e fiscalização da venda online de produtos à base de nicotina.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para pessoas que desejam parar de fumar. O atendimento inclui acompanhamento médico e psicológico, além de medicamentos como bupropiona e terapias de reposição de nicotina, que ajudam a reduzir a dependência.

Deixe uma resposta

scroll to top