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Projeto resgata memórias das africanidades em BH

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Será lançado no próximo dia 13 de junho o projeto Percussa: Uma Cartografia das Africanidades em BH. O objetivo é buscar registros das trajetórias, experiências e lugares de memória da população negra em Belo Horizonte (MG), tendo como referência a perspectiva de mulheres negras.

No primeiro encontro, o projeto contará com as presenças de Maria Luiza de Barros, da coletiva Terra Preta Cidade, e da artista literária Nívea Sabino

Pedreira Prado Lopes, uma das comunidades mais antigas de BH, vista de cima – Foto: Divulgação/UFMG

Segundo a organização do projeto, apesar de pouco referenciadas, essas mulheres são protagonistas fundamentais na (re)existência de famílias e comunidades. Muitas delas na atualidade, como no passado, guardam e disseminam em suas comunidades conhecimentos, tecnologias ancestrais que possibilitam viver em um contexto de negação à existência dos corpos negros na cidade.

Para Cristiano Cezarino Rodrigues, professor da Escola de Arquitetura da UFMG, Líder do Grupo de Pesquisa CNPQ Africanidades e a Cidade, e um dos curadores do projeto, o foco do projeto é a mulher negra na cidade. “O Percursa parte das narrativas das mulheres negras, porque são as mais invisibilizadas durante todo o processo e a gente percebe que elas são agentes absolutamente ativos na construção da sociedade”, explica.

O professor também ressalta que o intuito é, “na medida do possível, construir estratégias para dar visibilidade a essas presenças e nosso ponto de partida é sobre literaturas produzidas por mulheres negras e, a partir daí, a gente tem se desdobrado para outas presenças, para dar outro sentido, contar essa história de outro jeito, que não é o jeito oficioso. A gente pode provocar outras possibilidades da história de Belo Horizonte a partir de outras perspectivas”, completa.

Metodologia

Uma equipe de pesquisadoras e pesquisadores realiza o levantamento de referências bibliográficas sobre a história de Belo Horizonte, assim como referenciais de produção do espaço urbano e arquitetônico. 

Ainda de acordo com a organização, esses “achados” serão disponibilizados em plataforma online e colaborativa, georeferenciando no mapa de Belo Horizonte, espaços marcantes para a história das presenças negras na cidade. O acesso a todo conteúdo será gratuito.

Entraves

Cristiano lembra que quando se conta história de pessoas negras, se encontra uma certa dificuldade, uma vez que sempre existe a alegação de que não existem fontes para desenvolver as pesquisas. “Existem essas fontes, sim. A questão é que essas fontes não são fáceis de encontrar. As informações estão escondidas, então, temos um trabalho muito maior em elencar essas fontes, e você tem um trabalho muito maior para poder constituir algumas dessas histórias”, reflete.

Cristiano Cezarino Rodrigues é curador do Africanidades e lembra das dificuldades do processo de pesquisa – Foto:

“É desafiador, é trabalhoso, mas é importante a gente encarar essa tarefa porque o Africanidades não tem como propósito de ser o detentor dessa outra perspectiva, dessa outra verdade. A gente imagina um Africanidades como o start de um processo”, conclui.

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Como resultado do projeto, além dos seminários e da plataforma colaborativa, será realizado um percurso, presencial, em locais significativos da memória e da história da população negra. Nesse momento será possível experienciar o espaço e escutar narrativas. “A partir das perspectivas do cidadão comum, percebemos que existe vida, (re)existência, outros modos de vivenciar essa cidade. Existe alegria, sim, existe a construção de várias histórias lindas, em alguns momentos com capítulos sofridos, doloroso, mas de muita superação, e acho que isso é importante. Senão, ficamos nessa posição oficial de que a população preta é sempre massacrada, é incapaz de produzir, mas é justamente o contrário”, afirma.

“As pessoas conseguem se reinventar, resistir e constituir histórias que são fabulosas”, finaliza.

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