Negros ocupam menos de 5% dos cargos de comando na diplomacia brasileira

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Fotografia Oficial da Turma, João Cabral de Melo Neto (2019 - 2020). Foto: Alan Santos/PR

A representação de pessoas negras nos postos de chefia do serviço exterior brasileiro é extremamente baixa, ficando em apenas 4,9%. A informação consta da quarta edição do Boletim Estatístico Étnico-Racial do Serviço Exterior Brasileiro, produzido pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) com dados de setembro de 2025, obtidos via Lei de Acesso à Informação dada em primeira mão pelo jornal Brasil de Fato.

Em toda a carreira diplomática, os autodeclarados negros são 15,7%, um contraste flagrante com os 55,5% da população brasileira identificada como preta ou parda no Censo de 2022. A hierarquia funcional do Itamaraty revela um fenômeno de estreitamento racial conforme se sobe na carreira. Entre os terceiros-secretários, nível de ingresso, os negros representam 33,9%.

No topo, entre os ministros de primeira classe, essa porcentagem cai para 6,3%, enquanto os brancos constituem 90,1% desse estrato. A função de chefe de posto no exterior, que inclui embaixadores e cônsules-gerais, é majoritariamente branca: 91,7% dos 204 postos são comandados por pessoas brancas.

Em toda a carreira diplomática, os autodeclarados negros são 15,7%, um contraste flagrante com os 55,5% autodeclarados negros no Brasil – Foto: Alan Santos/PR.

Questionado sobre os números, o Itamaraty emitiu nota atribuindo a baixa representatividade à “própria estrutura da carreira”, que é de progressão lenta e baseada em concursos públicos, limitando intervenções de efeito imediato. A pasta também citou iniciativas de promoção da diversidade, como o Programa de Ação Afirmativa, criado em 2002 para conceder bolsas a candidatos negros ao concurso de admissão, com 78 bolsistas aprovados até o momento.

Em dezembro de 2024, o ministério lançou seu Plano de Ação para o Programa Federal de Ações Afirmativas, um documento que lista diretrizes para promover equidade. No entanto, o plano não define metas numéricas ou prazos específicos para reverter a sub-representação nos cargos de liderança.

Um caso que ganhou repercussão ilustra disputas internas. Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, em fevereiro de 2024, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert afirmou ter sido preterida em uma promoção para ministra de primeira classe. Ela era a única mulher negra no quadro elegível e estava na 25ª posição da lista, mas a promoção foi dada a um homem branco na 61ª colocação.

“Não há registros escritos ou atas das reuniões que definem promoções no quadro especial”, criticou a diplomata, que ajuizou um mandado de segurança. O MRE declarou não comentar processos judiciais.

A presença feminina também é minoritária na carreira, correspondendo a 23% do total de diplomatas e a apenas 18% das chefias de posto no exterior.

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Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

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