Mulheres negras são 24% da população, mas realizam 44% dos trabalhos de cuidados no país

969126-marcha-de-mulheres-negras-4290.webp

Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Os trabalhos de cuidados no Brasil estão concentrados majoritariamente nas mãos das mulheres, que respondem por quase 80% das tarefas domésticas e de amparo a familiares de forma não remunerada. Dentro desse universo, as mulheres negras enfrentam a maior sobrecarga: embora representem 24% da população, são responsáveis por 44% dessas atividades.

A pesquisa “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, baseada em dados da PNAD 2015, revela que a divisão desigual dessa tarefa condiciona mulheres a ciclos de empobrecimento e exclusão, limitando suas oportunidades educacionais, profissionais e de participação política.

A Política Nacional de Cuidados, instituída pelo governo federal em 2024, busca garantir o direito ao cuidado e promover a corresponsabilização entre homens e mulheres. Dados da PNAD Contínua de 2022 confirmam o cenário, apontando que as mulheres dedicaram 9,6 horas semanais a mais que os homens nesse tipo de atividade.

Os trabalhos de cuidados no Brasil estão concentrados nas mãos das mulheres que respondem por quase 80% das tarefas domésticas – Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

O estudo mostra que a desigualdade atravessa gênero, raça e classe. Mulheres de baixa renda dedicam mais horas ao cuidado não remunerado devido ao menor acesso a serviços básicos e eletrodomésticos. A análise também destaca que meninas de 10 a 14 anos produzem mais cuidados do que qualquer grupo etário de homens. Já as mulheres negras, da adolescência à velhice, são as protagonistas na provisão desses cuidados. Uma em cada três mulheres negras transfere mais de 20 horas semanais de trabalho doméstico para os membros de sua casa.

As pesquisadoras apontam que essa realidade reflete uma herança histórica e limita a autonomia financeira e a participação política desse grupo. A sobrecarga se intensifica para mulheres negras de baixa renda, que têm menos acesso a serviços públicos. Entre 25 e 39 anos, as mulheres atingem o pico da produção de cuidados, o que impacta suas trajetórias profissionais, especialmente no período da maternidade. Em contrapartida, os homens consomem mais cuidados do que produzem ao longo da vida.

Para enfrentar o problema, as pesquisadoras sugerem que as políticas públicas priorizem grupos com maiores necessidades, como a ampliação de vagas em creches, escolas em tempo integral e apoio domiciliar para idosos em áreas com alta incidência de jovens cuidadoras.

Leia mais notícias por aqui: Dirigente de abrigo na Bahia é presa suspeita de tortura contra mulheres acolhidas

Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

Deixe uma resposta

scroll to top