“Não matem meus jovens”: Movimento Negro Evangélico lança campanha contra violência racial

Movimento negro evangélico

John Moore/Getty Images/AFP

A violência que atinge jovens negros no Brasil motivou o lançamento de uma campanha nacional liderada por organizações religiosas. O Movimento Negro Evangélico (MNE) lançou nesta semana a campanha “Não matem meus jovens”, iniciativa que busca mobilizar igrejas e comunidades de fé para denunciar a letalidade que afeta desproporcionalmente a juventude negra no país.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras representam mais de 75% das vítimas de mortes violentas intencionais no Brasil. Entre jovens de 15 a 29 anos, o risco de homicídio é significativamente maior quando se trata da população negra.

A campanha propõe ampliar o debate dentro do campo religioso evangélico sobre os impactos do racismo estrutural e da violência nos territórios periféricos. Ao longo do mês de março, a mobilização deve promover ações de comunicação digital, encontros comunitários e momentos de oração nas igrejas, dentro da agenda dos chamados 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo.

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John Moore/Getty Images/AFP

Para lideranças do movimento, o enfrentamento da violência contra jovens negros também precisa envolver instituições religiosas, que têm forte presença em comunidades periféricas.

A teóloga e pastora Rose Cabral, do Ministério Casa de Profetas, no Rio de Janeiro, afirma que a violência racial no país revela a permanência de desigualdades estruturais.

“No Brasil, a raça ainda é um marcador social, um verdadeiro jugo de desigualdade que condena jovens negros à morte diariamente. Como discípulos de Jesus, não podemos nos esquecer de que fomos chamados para dar continuidade à obra do nosso Mestre”, afirmou.

Ela acrescenta que, diante da realidade enfrentada por famílias negras, as igrejas não podem permanecer em silêncio. “A sociedade espera da Igreja os mesmos atos de justiça narrados nos Evangelhos: acolhimento aos necessitados e consolo aos que choram. Diante dessa realidade, não podemos nos calar”, disse.

Casos recentes também têm alimentado o debate sobre racismo estrutural e violência. Em fevereiro deste ano, o psicólogo baiano Manoel Rocha Reis Neto, mestrando da Universidade Federal da Bahia, denunciou um episódio de racismo sofrido durante o Carnaval de Salvador. Dias depois, ele foi encontrado morto, em um caso que gerou repercussão nacional e levantou discussões sobre os impactos do racismo na saúde mental da população negra.

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Outro episódio citado por organizações de direitos humanos é a operação policial realizada em 2023 no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A ação, considerada uma das mais letais da história recente do estado, teve como maioria das vítimas jovens negros moradores das comunidades.

Para Gustavo Germano, teólogo, pedagogo e coordenador nacional do Movimento Negro Evangélico, a violência contra jovens negros não pode ser tratada como um fenômeno isolado.

“Infelizmente no Brasil, a juventude negra segue sendo dizimada de forma cruel. O racismo estrutural permanece impregnado em nossas instituições, inclusive em muitas igrejas”, afirmou.

Segundo ele, a campanha também pretende acolher mães e familiares de vítimas da violência, que muitas vezes enfrentam o luto e o medo cotidiano sem apoio institucional.

A iniciativa convida lideranças religiosas, juventudes evangélicas e comunidades de fé em todo o país a participarem da mobilização. Para o movimento, o objetivo é transformar a dor das famílias afetadas em ação comunitária, denúncia pública e articulação social em defesa da vida da juventude negra.

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