Quase quatro em cada dez médicos formados por faculdades privadas no Brasil concluíram o curso sem atingir o nível mínimo de proficiência para o exercício da profissão. O dado é da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, aplicada em outubro do ano passado e divulgada nesta semana pelos ministérios da Educação e da Saúde, em parceria com o Inep.
Entre os 24.487 formandos de instituições privadas, com ou sem fins lucrativos, que realizaram a prova, 9.489 não alcançaram desempenho considerado suficiente. O índice representa 38,8% dos futuros médicos vindos do setor privado.

Ao todo, cerca de 39 mil estudantes participaram do exame. O resultado escancara uma desigualdade expressiva entre o desempenho de instituições públicas e privadas na formação médica.
Das 49 faculdades que receberam nota máxima (conceito 5) no Enamed, 40 são públicas, a maioria universidades federais. As únicas instituições que registraram 100% de alunos proficientes foram a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Na outra ponta, entre os 28 cursos que obtiveram a nota mínima (conceito 1), 17 pertencem à rede privada. Apenas uma instituição federal aparece nesse grupo: a Universidade Federal do Pará.
O levantamento também mostra que 13.871 estudantes estão matriculados em cursos classificados com desempenho “crítico” ou “insuficiente” (conceitos 1 e 2). Como consequência, essas instituições sofrerão sanções do Ministério da Educação, incluindo suspensão de ingresso de novos alunos, redução de vagas e bloqueio de acesso a programas federais, como o Fies.
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Quem forma hoje os médicos no Brasil
A maioria dos formandos em medicina no país vem de instituições privadas:
- Privadas com fins lucrativos: 15.409 formandos
- Privadas sem fins lucrativos: 9.078
- Públicas federais: 6.501
- Comunitárias/confessionais: 3.882
- Públicas estaduais: 2.402
- Instituições especiais: 1.040
- Públicas municipais: 944
Cursos punidos
- 8 cursos com menos de 30% de alunos proficientes terão suspensão total de novos ingressos.
- 13 cursos com proficiência entre 30% e 40% terão redução de 50% das vagas.
- 33 cursos com proficiência entre 40% e 50% terão redução de 25% das vagas.
Todos esses grupos também terão suspensa a participação no Fies e em outros programas federais. Outros 45 cursos, com mais de 50% de proficiência, ficam proibidos de ampliar vagas.
Qualidade em disputa
O Enamed foi criado justamente para medir a qualidade da formação médica no país, em meio à rápida expansão de faculdades privadas nas últimas décadas. Especialistas alertam que o crescimento acelerado do setor privado, muitas vezes sem estrutura hospitalar adequada ou corpo docente suficiente, tem impacto direto na qualidade da formação e, consequentemente, na segurança da população atendida no sistema de saúde.
A divulgação dos dados reacende o debate sobre a mercantilização do ensino médico e a necessidade de políticas mais rigorosas de regulação e avaliação da formação profissional no Brasil.










