O rapper e produtor Kanye West, que atualmente utiliza o nome artístico Ye, publicou nesta segunda-feira (26) uma carta aberta de desculpas após uma série de declarações e ações de apologia ao nazismo nos últimos anos. O texto foi divulgado em formato de anúncio no jornal Wall Street Journal e, segundo a revista Vanity Fair, o espaço foi pago por sua marca, Yeezy.
Na carta, Kanye afirma que viveu um longo episódio de crise psiquiátrica e declara: “Perdi o contato com a realidade”. Ele pede desculpas às pessoas que afirma ter magoado e diz estar em tratamento. O anúncio ocorre dias antes do lançamento de seu novo disco, previsto para sexta-feira (30).

O pedido público de desculpas surge após uma sequência de episódios que levaram ao rompimento de contratos comerciais, cancelamento de apresentações e investigações públicas. Desde 2022, o artista fez declarações elogiando Adolf Hitler, afirmou ter “amor pelos nazistas”, lançou uma música intitulada Heil Hitler e chegou a vender produtos com suásticas. As ações geraram ampla condenação internacional e afastamento de marcas parceiras, fazendo com que Kanye deixasse de integrar a lista de bilionários.
No Brasil, a controvérsia também teve impacto direto. Em 2025, um show que o artista faria em São Paulo foi cancelado após posicionamento público do prefeito Ricardo Nunes e abertura de inquérito pelo Ministério Público de São Paulo, que avaliava possível prática de apologia ao nazismo. A prefeitura declarou que não autorizaria apresentações em espaços públicos de artistas envolvidos em discursos de ódio.
A carta pública
No texto divulgado, Kanye afirma não ser antissemita nem nazista. “Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu”, escreveu. Em seguida, diz que suas ações ocorreram durante um período de grave instabilidade mental.
O artista relata que sofreu um acidente de carro em 2002, que teria causado lesões cerebrais não diagnosticadas à época. Segundo ele, apenas em 2023 recebeu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1. Kanye afirma que, no início de 2025, viveu “um episódio de mania de quatro meses, com comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos”, que teriam levado às declarações de ódio.
“Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais amo tratei da pior forma”, escreveu. Ele também relata ter enfrentado momentos em que não queria continuar vivo e afirma que agora tenta retomar uma rotina saudável.
Saúde mental e responsabilidade
Na carta, Kanye volta a abordar o tema da saúde mental, dizendo que o transtorno bipolar é uma doença séria e debilitante, marcada por estigma social. Ele afirma não pedir “simpatia nem passe livre”, mas solicita paciência enquanto se recupera.
Especialistas em direitos humanos e organizações judaicas, no entanto, já haviam reforçado anteriormente que doenças mentais não justificam discurso de ódio nem apologia ao nazismo, que são crimes em diversos países e configuram violência simbólica contra populações historicamente perseguidas.
Impacto cultural e reputacional
Kanye West foi, por duas décadas, um dos artistas mais influentes da indústria musical global, responsável por redefinir estéticas do hip hop, da moda e da produção musical contemporânea. Nos últimos anos, porém, sua trajetória passou a ser marcada por controvérsias públicas, afastamento de fãs e ruptura com o mercado cultural tradicional.
O novo pedido de desculpas representa uma tentativa de reconstrução de imagem em meio a um cenário de isolamento profissional. Resta saber se a indústria cultural e o público aceitarão a reaproximação, especialmente diante da gravidade das declarações anteriores.
Próximos passos
Com o anúncio publicado e o novo disco prestes a ser lançado, Kanye West retorna ao debate público em um momento delicado. A carta marca, ao mesmo tempo, um pedido de perdão, uma exposição de fragilidade psíquica e uma tentativa de reposicionamento artístico.
Independentemente dos desdobramentos, o episódio reacende discussões centrais sobre responsabilidade pública de figuras influentes, limites da liberdade de expressão e os impactos concretos do discurso de ódio na sociedade contemporânea.










