Um condomínio localizado na encosta do Humaitá, na Zona Sul do Rio de Janeiro, voltou a ganhar destaque nas redes sociais por unir aparência arquitetônica associada a favelas e imóveis avaliados em valores milionários. O Parque Maria Cândida Pareto, construído em 1978, tem sido chamado informalmente de “favela de luxo”, em referência à sua estética urbana contrastando com o perfil socioeconômico de seus moradores.
O condomínio foi projetado pelo arquiteto Sérgio Bernardes, referência da arquitetura moderna brasileira e conhecido por propor soluções estruturais integradas ao relevo urbano. O conjunto acompanha a encosta e é organizado em níveis verticais, com cerca de 60 unidades distribuídas em “ruas empilhadas”, conectadas por circulações internas e elevadores inclinados. A proposta dialoga com modelos de habitação pensados originalmente para áreas íngremes e densas, comuns no Rio de Janeiro.

Imagem: Reprodução/Redes sociais
Embora a inspiração dialogue com conceitos de urbanização voltados a encostas e ocupações populares, o projeto foi direcionado ao mercado imobiliário formal. Em vez de atender moradia social, tornou-se um condomínio fechado com unidades amplas, áreas de lazer e localização estratégica entre a Lagoa e Botafogo, fatores que contribuíram para a valorização financeira do espaço.
Elementos como tijolos aparentes, volumes sobrepostos, rampas e a sensação de “casas empilhadas” aproximam visualmente o condomínio de paisagens comuns nas favelas cariocas. Nas redes, usuários apontam a contradição entre o visual associado historicamente à pobreza e a realidade de um espaço de alto padrão. A comparação também reacende debates sobre desigualdade urbana, apropriação estética e segregação socioespacial no Rio.
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Os valores dos imóveis refletem esse cenário. Segundo anúncios imobiliários, unidades no condomínio podem ultrapassar R$ 2 milhões. Um dos imóveis atualmente ofertados em plataformas de venda tem 314 m², cinco quartos, quatro banheiros e infraestrutura de lazer, com churrasqueira, quadra e área verde.
O caso reforça como símbolos que marcaram historicamente territórios periféricos passam a ser ressignificados quando inseridos em contextos de alto padrão econômico. Ao mesmo tempo, evidencia como a paisagem das encostas do Rio segue sendo espaço de disputa simbólica, social e financeira, ora associada à precariedade, ora convertida em exclusividade imobiliária.









