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Entenda a “aporofobia”, a aversão aos pobres

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Estruturas instaladas para impedir a permanência de pessoas em situação de rua em espaços públicos são cada vez mais comuns. Mas não deveriam ser. O nome disso é ‘aporofobia’: a aversão aos pobres.

Nesta semana, o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, de São Paulo, usou seu perfil numa rede social para expor mais uma estrutura instalada na cidade do Rio para impedir o acesso às pessoas em situação de rua. Uma estrutura ao redor de uma árvore foi colocada para servir de banco. No entanto, ela foge do que normalmente é visto pelas ruas, e traz ripas como divisórias. A alteração não permite, então, que pessoas deitem no local.

Imagem postada na rede social do padre Julio Lancelotti / Banco no RJ

O termo aporofobia, constantemente usado pelo religioso, se refere a medo, rejeição, hostilidade e aversão às pessoas pobres e à pobreza.

O conceito foi cunhado pela filósofa espanhola Adélia Cortina há mais de 20 anos, a partir da  junção dos termos gregos, Á-poros (pobre) e fobéo (aversão). Em 2017, o neologismo foi escolhido como a palavra do ano pela Fundación del Español Urgente (Fundéu), e incorporado aos dicionários da lingua espanhola.

Adélia é autora do livro Aporofobia, a Aversão ao Pobre: um Desafio Para a Democracia (Contracorrente). Aludindo ao conceito de xenofobia (ódio ao estrangeiro), a filósofa diz que é a pobreza que causa a verdadeira aversão. Como exemplo, ela cita que, salvo casos isolados, artistas e jogadores de futebol não são alvos preferenciais do ódio xenófobo – porque não são pobres.

Em vez de acolhimento e políticas públicas que garantam dignidade, as populações em situação de rua, diversos estabelecimentos e até mesmo locais religiosos utilizam grades, pedras, entre outros materiais que impedem que pessoas em situação de rua abriguem-se.

A Catedral Metropolitana de Campinas (SP), por exemplo, colocou espetos nas escadas de uma das entradas da igreja. Após o padre Júlio Lancellotti, que atua em São Paulo, postar uma foto da situação para denunciar a “aporofobia” , a catedral informou, na última segunda-feira (13), que vai retirar, até o fim desta semana, os espetos.

Escadaria da Catedral de Campinas com espetos; caso foi denunciado pelo padre Júlio Lacelloti — Foto: João Alvarenga/EPTV

Projeto de lei “Padre Júlio Lancellotti” – contra a aporofobia

A palavra “aporofobia” passou a ser difundida recentemente no Brasil com uma campanha do padre Júlio Lancellotti contra as cidades que a praticam.

Em fevereiro, padre Júlio marretou blocos de paralelepípedos instalados pela Prefeitura de São Paulo na parte inferior de viadutos na Zona Leste da capital.

Por isso e por toda a luta ao lado dos pobres em São Paulo, um projeto de lei que proíbe técnicas de construção hostil e restringe o uso do espaço público leva o seu nome. A Comissão de Desenvolvimento Urbano, da Câmara dos Deputados, aprovou em, novembro, o projeto de lei “Padre Júlio Lancellotti”.

O texto ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo plenário para ser aprovado.

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