Setenta anos após sofrer expulsões, perseguições e um massacre que quase eliminou sua existência coletiva, o povo Xetá voltou a ocupar parte do território tradicional no norte do Paraná. De acordo com as próprias lideranças indígenas e registros históricos reunidos pelo Conselho Indigenista Missionário e pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana, 42 famílias iniciaram em 6 de janeiro a retomada de uma área no distrito de Terra Nova, em São Jerônimo da Serra, reivindicando a conclusão da demarcação da Terra Indígena Herarekã Xetá.
Considerados extintos oficialmente na década de 1980, os Xetá afirmam que a ocupação é também um gesto de memória. “A retomada é também, uma homenagem aos ancestrais que, ao encantarem, levaram consigo, o sonho da terra sagrada”, disseram ao CIMI.
O processo demarcatório começou na Fundação Nacional dos Povos Indígenas em 1999, mas segue parado, alvo de disputas judiciais e da aplicação do marco temporal. As lideranças ainda denunciam demora do poder público estadual.
A história de violência inclui invasões antigas e, a partir dos anos 1940, a entrega das terras a companhias de colonização, entre elas a COBRIMCO, ligada ao grupo Bradesco. Do massacre restaram oito crianças sobreviventes. Uma delas foi Tikuen, pai do atual cacique Júlio Cesar da Silva.

“Essa é uma homenagem ao meu pai que faleceu e não conseguiu conquistar a terra que tanto buscou depois das invasões”, disse Júlio ao CIMI.
Espalhados por diferentes regiões, os sobreviventes levaram décadas para se reencontrar. Claudemir da Silva relembra: “Na época que nosso povo foi expulso, cada um foi levado para um canto, e ninguém sabia ao certo onde estavam”. Ele também descreve a brutalidade sofrida: “Muitos dos nossos foram assassinados, mulheres estupradas, pessoas envenenadas. Colocaram os indígenas dentro de um caminhão, como se fossem criação”.
Determinados a permanecer, afirmam: “Daqui não vamos sair, a não ser que matem a todos”. Para o grupo, a retomada é condição para reconstruir cultura, língua e autonomia. “Nunca tivemos um espaço para dizer que é da gente”.
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