Burnout: afastamentos do trabalho crescem quase 500% em quatro anos

09_07_2020_teletrabalho-3.webp

Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que os afastamentos do trabalho em decorrência da síndrome de burnout registraram um aumento exponencial a partir de 2021. A concessão de auxílios-doença por esgotamento profissional e falta de lazer teve um crescimento de 493% em quatro anos, passando de 823 casos em 2021 para 4.880 em 2024.

A alta se manteve acelerada em 2025. Apenas entre janeiro e junho deste ano, foram contabilizados 3.494 afastamentos, número que corresponde a 71,6% do total registrado em todo o ano anterior. Entretanto, especialistas e técnicos do governo avaliam que os casos podem estar subnotificados.

Isso porque o diagnóstico do burnout é considerado complexo, muitas vezes associado a outros quadros como depressão e ansiedade. Além disso, trabalhadores informais, que não contribuem para o INSS, não entram nas estatísticas oficiais.

O fenômeno ocorre em um contexto de crescimento geral dos afastamentos por questões de saúde mental. Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu 472,3 mil benefícios por transtornos mentais, incluindo depressão e ansiedade, dentro de um total de 3,6 milhões de auxílios-doença. Este tipo de adoecimento já responde por aproximadamente um a cada sete afastamentos, se aproximando das causas osteomusculares, que historicamente lideram as concessões.

O impacto financeiro acompanha o aumento dos casos. As despesas com auxílio-doença saltaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024, uma elevação de 68%. No mesmo intervalo, os gastos totais da Previdência cresceram a um ritmo menor, de 19,4%, saindo de R$ 734,3 bilhões para R$ 876,9 bilhões.

O descompasso entre as duas trajetórias de custos gerou alerta no governo. Estudos sobre o impacto começaram ainda durante a transição de 2022, quando já eram observados os efeitos prolongados da pandemia de Covid-19 na saúde mental. Entre os fatores citados para explicar o problema estão a expansão do trabalho remoto, o maior tempo de conexão digital, o crescimento da informalidade e a “uberização” das relações laborais.

Entre os fatores estão a expansão do trabalho remoto, o maior tempo de conexão digital, o crescimento da informalidade e a “uberização” – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

A regulamentação do burnout como doença ocupacional foi reforçada por uma normativa do Ministério da Saúde em 2023, assegurando o direito ao auxílio-doença acidentário e estabilidade no emprego após o retorno. Em seguida, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) determinou que as empresas realizassem o mapeamento de riscos psicossociais. A aplicação de multas por descumprimento, no entanto, foi adiada após pressão de empregadores e só deve começar em maio de 2026.

De acordo com o MTE, as consequências do adoecimento mental vão além do período de afastamento. Os benefícios por doenças ocupacionais não possuem carência mínima no INSS, ampliando o acesso, e garantem a manutenção do depósito do FGTS e estabilidade de doze meses após a volta ao trabalho.

Riscos do trabalho informal na aposentadoria

Devido ao elevado número de trabalhadores informais no Brasil, muitos enfrentam dificuldades para contribuir para a aposentadoria, especialmente a privada. Além disso, o país contava com cerca de 73,1 milhões de pessoas endividadas em outubro de 2024, segundo o Serasa, o que mostra certa dificuldade de dinheiro sobrando para contribuir com aposentadoria.

Uma das formas de trabalhadores informais com baixa renda conseguirem acesso a uma renda básica é por meio do Benefício de Prestação Continuada (BPC), um benefício assistencial concedido a idosos (65+) e pessoas com deficiência, embora não seja uma aposentadoria.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) atende atualmente mais de 6,02 milhões de idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. No entanto, com a adoção do Novo Arcabouço Fiscal, medidas de contenção foram impostas: exigência de recadastramento com biometria, ajuste no cálculo da renda familiar e restrições de deduções, previstas na Lei nº 15.077/2024. Essas mudanças endurecem os critérios de acesso e podem reduzir a cobertura do benefício. Esses são problemas que o desemprego e a informalidade podem intensificar.

Leia mais notícias por aqui: Justiça indeniza em R$15 mil mulher negra acusada injustamente por roubo em farmácia Raia Drogasil

Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

Deixe uma resposta

scroll to top