O banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela segunda vez na quarta-feira (4), durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, que investiga supostas fraudes bilionárias ao sistema financeiro por meio do Banco Master. A ofensiva também teve como alvos dois servidores do Banco Central, suspeitos de atuar em favor do banqueiro, segundo informações divulgadas na imprensa.
O caso se soma a uma crise que se agravou desde novembro de 2025 e que levou o Banco Central a liquidar três bancos, Master, Will Bank e Pleno, além da gestora Reag, todos citados como vinculados direta ou indiretamente a Vorcaro. A sequência de quebras deve gerar um impacto estimado de R$ 51 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que ressarce investidores em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira.

Para o professor de finanças e consultor Michael Viriato, o ponto central não é a existência do FGC, mas o incentivo econômico criado pelo modelo atual, um desenho que, na leitura dele, ajuda a explicar por que o sistema “incentiva, sim, o surgimento” de banqueiros com maior disposição ao risco. “O problema não está na existência do FGC, mas no incentivo econômico que o seu desenho acaba gerando para o pequeno investidor”, afirma.
Na avaliação do especialista, quando a aplicação fica “protegida” dentro do limite de cobertura, parte dos investidores deixa de observar a saúde do banco e passa a decidir “quase exclusivamente” pela taxa oferecida. Ele resume a lógica como “quanto pior, melhor”: se o banco der certo, o investidor ganha; se quebrar, espera receber do fundo. “Isso cria um incentivo claro” para escolher sempre o maior retorno, diz.
Do lado das instituições, Viriato descreve que o ambiente de concorrência, somado à distribuição em plataformas, permite que um banco capte rápido ao pagar mais caro. O problema, segundo ele, é a engrenagem típica do capitalismo financeiro, em que a promessa de retorno pressiona a tomada de risco: “A matéria-prima do banco é dinheiro” e, ao oferecer taxas mais altas, “eu tenho que investir em ativos mais arriscados”. Quando a aposta dá errado, afirma, “todo o sistema paga a conta”.
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Vorcaro, em depoimento citado na reportagem, teria dito que o plano do Master era “100% baseado no FGC” e que essa seria “a regra do jogo”. Viriato argumenta que esse tipo de modelo reduz a cobrança por transparência porque “nenhum banco precisa prestar contas ao pequeno investidor” quando ele se sente integralmente protegido.
Como saída, o especialista defende mudanças que redistribuam responsabilidades e reduzam o incentivo ao risco, como diminuir a cobertura efetiva para o investidor ou elevar o custo do seguro para bancos que captam dessa forma. “O investidor precisa ser corresponsável”, afirma, ao comparar o cenário a um motorista jovem cujo seguro é pago por terceiros, sem estímulo à prudência.










