Mais de um século após um dos episódios mais violentos de intolerância religiosa no Brasil, a Defensoria Pública do Estado de Alagoas ingressou com uma ação civil pública que pede a retirada do nome de Fernandes Lima de logradouros públicos em Maceió, incluindo uma das principais avenidas da capital.
A medida está relacionada à chamada “Quebra de Xangô”, ocorrida em 1912, quando grupos organizados invadiram, destruíram e incendiaram cerca de 150 terreiros de religiões de matriz africana em Maceió e cidades vizinhas. Objetos sagrados foram destruídos, tambores queimados e lideranças religiosas sofreram agressões físicas.
Segundo a Defensoria, documentos históricos, pesquisas acadêmicas e registros públicos apontam que José Fernandes de Barros Lima, posteriormente governador de Alagoas, foi um dos articuladores e apoiadores do movimento de repressão religiosa.

O episódio ocorreu em meio a disputas políticas locais. À época, o então governador Euclides Malta era associado a lideranças de terreiros, e grupos opositores organizaram ações violentas com o objetivo de enfraquecê-lo. Relatos históricos indicam que a chamada “Liga dos Republicanos Combatentes”, grupo que executou os ataques, contou com apoio ou liderança de Fernandes Lima.
Na ação, protocolada na última quinta-feira (19), a Defensoria sustenta que a manutenção do nome de Fernandes Lima em espaços públicos representa a exaltação de uma figura associada à violência racial e religiosa.
“A iniciativa busca promover uma reparação histórica, reconhecendo as violações do passado e reafirmando o compromisso com os direitos da população negra e das religiões de matriz africana”, afirmou o defensor público Othoniel Pinheiro, responsável pelo caso.
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Além da retirada do nome, o órgão também pede a condenação do município ao pagamento de indenização por dano moral coletivo, argumentando que a permanência dessas homenagens viola direitos à memória, à verdade e à igualdade racial.
A ação conta com o apoio de instituições acadêmicas, órgãos públicos e movimentos ligados às religiões de matriz africana. O caso reacende o debate sobre memória histórica e a revisão de homenagens públicas relacionadas a episódios de violência e discriminação no país.









