Reconhecimento reforça a importância da história e ajuda a preservar a memória e a cultura afro-brasileira
A Comunidade Tia Eva, localizada em Campo Grande (MS), alcançou um marco histórico ao se tornar o primeiro quilombo urbano do Brasil a ser oficialmente tombado como patrimônio cultural. O reconhecimento foi concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que destacou a importância do local para a preservação da memória, da cultura e da resistência da população negra no país.
O reconhecimento foi declarado no dia 10 de março de 2026, durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.

Foto: Denilson Secreta/Guia Negro
O tombamento inaugura um novo Livro do Tombo dedicado a sítios e documentos que preservam as memórias históricas dos antigos quilombos, criado a partir da Portaria nº 135 de 2023. A medida reconhece oficialmente a importância cultural, histórica e social desses territórios, que representam a resistência da população negra durante e após o período da escravidão no Brasil.
O processo que levou ao reconhecimento começou em 2024 e envolveu pesquisas técnicas, debates e a participação direta dos moradores da comunidade. Para o Iphan, a declaração representa também um gesto de reparação histórica, valorizando o protagonismo das comunidades quilombolas na preservação de sua própria memória e identidade cultural.
Hoje, o Quilombo Tia Eva é considerado uma das referências quilombolas urbanas mais antigas do país e um importante símbolo da resistência negra na região Centro-Oeste.
A história do Quilombo Tia Eva
A comunidade foi fundada no início do século XX por Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, uma mulher negra que havia sido escravizada e conquistou a liberdade após a abolição. Por volta de 1905, ela chegou à região que hoje corresponde a Campo Grande e começou a formar um pequeno núcleo comunitário baseado na fé, no trabalho e na solidariedade entre famílias negras.
Tia Eva era benzedeira e líder religiosa. Segundo a tradição local, ela construiu uma capela dedicada a São Benedito após fazer uma promessa ao santo, e ao redor dessa igreja surgiram as primeiras casas da comunidade. A partir desse núcleo, o quilombo se consolidou como um espaço de acolhimento, cultura e resistência para a população negra da região.
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Com o crescimento urbano de Campo Grande ao longo do século XX, a comunidade, que inicialmente era rural, acabou sendo incorporada à cidade. Mesmo assim, os descendentes da fundadora mantiveram vivas as tradições culturais e religiosas, como a Festa de São Benedito, realizada há mais de um século.
Hoje, o Quilombo Tia Eva reúne 250 famílias descendentes da fundadora e continua sendo um símbolo da memória, da identidade e da resistência quilombola no Brasil.









