Ausência de políticas públicas sobre menopausa atinge mais mulheres negras, aponta pesquisa

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O estudo alerta que no Brasil é preciso que as políticas públicas levem em consideração que tratar a mulher na menopausa é cuidar de todo o núcleo familiar

Um estudo realizado pelo Instituto Esfera, em Brasília, indica que a menopausa e os efeitos desse período podem ter consequências ainda mais profundas na saúde e na vida profissional de mulheres em situação de maior vulnerabilidade no país, especialmente mulheres negras e aquelas que vivem em comunidades com menor acesso a serviços públicos. A pesquisa também aponta para a urgência de o Brasil desenvolver políticas públicas específicas voltadas para esse período da vida, com o objetivo de reduzir os impactos físicos, sociais e econômicos enfrentados por essas mulheres.

Em entrevista à Agência Brasil, a pesquisadora Clarita Costa Maia, uma das responsáveis pelo estudo, explicou que a menopausa pode afetar mulheres negras de maneira particular. “O que constatamos é que a menopausa tem um componente biológico que atinge mais as mulheres negras e há o cruzamento de vulnerabilidades. São mulheres que sentem a menopausa com mais peso, biologicamente e socialmente falando”, explicou.

A instabilidade no trabalho durante a menopausa não afeta apenas a mulher que atravessa essa fase, mas repercute em todo o núcleo familiar do qual ela faz parte – Foto: Freepik

O estudo divulgado nessa terça (03) revela que os sintomas da menopausa, incluindo os físicos e psicológicos não tratados levam para a mulher uma insustentabilidade da relação profissional “Ela é, em regra, o arrimo de família e líder familiar. São mulheres que ficam numa posição muito frágil no mercado de trabalho”, ressaltou a pesquisadora.

A instabilidade no trabalho durante a menopausa não afeta apenas a mulher que atravessa essa fase, mas repercute em todo o núcleo familiar do qual ela faz parte. Por isso, o estudo chama atenção para a necessidade de políticas públicas que reconheçam essa dimensão coletiva do problema. Segundo os pesquisadores, oferecer suporte adequado às mulheres na menopausa significa também proteger o bem-estar e a estabilidade das famílias que dependem delas.

Saúde mental também entra em risco

A pesquisadora, que atua na área do direito e desenvolveu o estudo ao lado da médica Fabiane Berta de Sousa, ressalta que a falta de diagnóstico e tratamento adequado para os sintomas da menopausa pode provocar impactos importantes na saúde mental das mulheres.

“Aumentam significativamente as chances de desenvolvimento de Alzheimer, de depressão e diversas outras consequências relacionais advindas disso”, explicou.

Segundo ela, além dos efeitos físicos, a menopausa pode desencadear mudanças emocionais profundas, que muitas vezes não são compreendidas nem pelas próprias mulheres. Oscilações de humor, sensação de perda de controle sobre o próprio corpo e dificuldades nas relações pessoais podem surgir nesse período, especialmente quando não há acompanhamento médico ou apoio psicológico.

Menopausa precoce e necessidade de mapeamento

Outro ponto destacado pela pesquisadora é o aumento dos casos de menopausa precoce, fenômeno que, segundo ela, tem relação com transformações no modo de vida contemporâneo. O estudo também chama atenção para o contexto de envelhecimento da população brasileira, que exige maior preparação das redes públicas de saúde para lidar com essas fases da vida.

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De acordo com o estudo, um dos passos fundamentais para enfrentar os impactos da menopausa no país seria a realização de um mapeamento nacional sobre o tema. A iniciativa permitiria compreender melhor a realidade brasileira, dimensionar o número de mulheres afetadas e orientar a criação de políticas públicas mais eficazes.

Levantamentos internacionais indicam que os impactos econômicos desse período também podem ser quantificados. Nos Estados Unidos, por exemplo, os custos associados à menopausa chegam a cerca de US$ 26,6 bilhões por ano, enquanto no cenário global a estimativa alcança US$ 150 bilhões. Estudos também apontam uma redução média de 10% na renda de mulheres que enfrentam sintomas mais intensos.

No Brasil, a estimativa apresentada pelo estudo aponta que cerca de 29 milhões de mulheres estão nessa fase da vida. Entre elas, aproximadamente 87,9% apresentam algum tipo de sintoma relacionado à menopausa, mas apenas 22,4% procuram tratamento ou acompanhamento médico.

Layla Silva

Layla Silva

Layla Silva é jornalista e mineira que vive no Rio de Janeiro. Experiência como podcaster, produtora de conteúdo e redação. Acredita no papel fundamental da mídia na desconstrução de estereótipos estruturais.

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