Ditadura militar agravou desigualdade de saúde entre negros e brancos, aponta estudo

O percentual de idosos vacinados contra a covid-19 é três vezes maior que de negros

O percentual de idosos vacinados contra a covid-19 é três vezes maior que de negros

Brasileiros negros que passaram a infância e a juventude durante a Ditadura Militar apresentam hoje piores indicadores de saúde do que a população branca da mesma geração. A pesquisa aponta que o período autoritário aprofundou desigualdades raciais que ainda se refletem no envelhecimento. Os dados são de um estudo da Universidade de Michigan.

O trabalho foi publicado no periódico Journal of Gerontology: Social Sciences e analisou dados de cerca de 9 mil pessoas com 50 anos ou mais que participaram do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros entre 2015 e 2016. Ao comparar diferentes faixas etárias, os pesquisadores perceberam que as disparidades não se acentuam apenas na velhice, mas já se mostram mais intensas na meia-idade.

A geração que hoje está na casa dos 50 anos foi a primeira a crescer sob o regime militar, entre 1964 e 1985. Segundo o estudo, políticas sociais que não consideravam a dimensão racial ignoraram a forte estratificação existente no país, o que deixou comunidades marginalizadas com menos acesso a educação, alimentação adequada e serviços de saúde, fatores decisivos para um envelhecimento saudável.

O percentual de idosos vacinados contra a covid-19 é três vezes maior que de negros
Brasileiros negros que passaram a infância e a juventude durante a Ditadura Militar apresentam hoje piores indicadores de saúde – Foto: Istock.

Shane Burns, autor do estudo, que é bolsista de pós-doutorado no Centro de Estudos de População do Instituto de Pesquisa Social da universidade e autor do trabalho, afirma que o resultado contrariou a expectativa inicial dos pesquisadores. “Essas descobertas remetem ao conceito dos ‘reflexos duradouros da infância’, que sustenta que as condições do início da vida preparam o terreno para a saúde mais tarde, ao mostrar como brasileiros pretos e pardos que cresceram durante a ditadura militar têm agora um risco mais alto de sofrer limitações em sua autonomia”, diz.

Ele acrescenta: “A história política tumultuada e única do Brasil, aliada à população em rápido envelhecimento, torna especialmente interessante estudar as implicações para a saúde pública”.

O estudo também identificou mais queixas de memória entre pretos, pardos e indígenas, sobretudo entre 50 e 59 anos. Para os autores, combater a pobreza na infância, melhorar a infraestrutura de regiões menos desenvolvidas e ampliar o acesso à saúde e aos cuidados de longa duração são medidas essenciais para reduzir essas desigualdades.

Leia mais notícias por aqui: Justiça Federal condena vereador e mais 11 por tortura contra indígenas após 20 anos

Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

Deixe uma resposta

scroll to top