Brasileiros negros que passaram a infância e a juventude durante a Ditadura Militar apresentam hoje piores indicadores de saúde do que a população branca da mesma geração. A pesquisa aponta que o período autoritário aprofundou desigualdades raciais que ainda se refletem no envelhecimento. Os dados são de um estudo da Universidade de Michigan.
O trabalho foi publicado no periódico Journal of Gerontology: Social Sciences e analisou dados de cerca de 9 mil pessoas com 50 anos ou mais que participaram do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros entre 2015 e 2016. Ao comparar diferentes faixas etárias, os pesquisadores perceberam que as disparidades não se acentuam apenas na velhice, mas já se mostram mais intensas na meia-idade.
A geração que hoje está na casa dos 50 anos foi a primeira a crescer sob o regime militar, entre 1964 e 1985. Segundo o estudo, políticas sociais que não consideravam a dimensão racial ignoraram a forte estratificação existente no país, o que deixou comunidades marginalizadas com menos acesso a educação, alimentação adequada e serviços de saúde, fatores decisivos para um envelhecimento saudável.

Shane Burns, autor do estudo, que é bolsista de pós-doutorado no Centro de Estudos de População do Instituto de Pesquisa Social da universidade e autor do trabalho, afirma que o resultado contrariou a expectativa inicial dos pesquisadores. “Essas descobertas remetem ao conceito dos ‘reflexos duradouros da infância’, que sustenta que as condições do início da vida preparam o terreno para a saúde mais tarde, ao mostrar como brasileiros pretos e pardos que cresceram durante a ditadura militar têm agora um risco mais alto de sofrer limitações em sua autonomia”, diz.
Ele acrescenta: “A história política tumultuada e única do Brasil, aliada à população em rápido envelhecimento, torna especialmente interessante estudar as implicações para a saúde pública”.
O estudo também identificou mais queixas de memória entre pretos, pardos e indígenas, sobretudo entre 50 e 59 anos. Para os autores, combater a pobreza na infância, melhorar a infraestrutura de regiões menos desenvolvidas e ampliar o acesso à saúde e aos cuidados de longa duração são medidas essenciais para reduzir essas desigualdades.
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