Dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100), canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), indicam que a intolerância religiosa segue como violação recorrente no país e atinge, de forma desproporcional, mulheres e praticantes de religiões de matriz africana, com destaque para a umbanda. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias relacionadas ao tema.
O número mantém a tendência observada em anos anteriores. Em 2024, o Brasil contabilizou 2.472 violações motivadas por intolerância religiosa. Apenas nos primeiros dias de janeiro de 2026, o canal já somava 51 denúncias, sinalizando continuidade dos casos no início do ano.

Em 2025, as denúncias se distribuíram ao longo dos meses, com maior concentração em abril (278 registros), setembro (272) e outubro (256). A maior incidência foi registrada entre pessoas adultas, especialmente nas faixas etárias de 40 a 44 anos, 35 a 39 anos e 30 a 34 anos.
No recorte territorial, os estados com mais denúncias entre 2025 e janeiro de 2026 foram São Paulo (667), Rio de Janeiro (446), Minas Gerais (323) e Bahia (211), com registros em todas as regiões do país.
Entre as religiões explicitamente identificadas nas denúncias do período, as tradições de matriz africana concentram os maiores volumes: umbanda (228), candomblé (161), registros classificados como “umbanda e candomblé” (47) e outras religiosidades afro-brasileiras (40). Em seguida, aparecem ocorrências envolvendo pessoas evangélicas (72), católicas apostólicas romanas (37), espíritas (30) e casos em que a vítima declarou não saber informar a religião (50), além de outras tradições e pessoas sem religião.
Em novembro de 2025, o MDHC publicou o relatório e o caderno informativo “Respeite Meu Terreiro”, que mapeou episódios de intolerância religiosa contra religiões de matriz africana em 255 terreiros do país, com investimento de R$ 730 mil, em parceria com a Unirio. O levantamento aponta que 76% dos terreiros participantes disseram já ter sofrido algum tipo de racismo religioso e 80% relataram vítimas diretas nas comunidades.
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Para a coordenadora de Promoção da Liberdade Religiosa do MDHC, Beatriz Souza de Oliveira, os registros do Disque 100 ajudam a dimensionar padrões estruturais e a subsidiar políticas públicas de prevenção e proteção. Já a coordenadora-geral do canal, Franciely Loyze, afirma que denunciar “dá visibilidade” às violações e fortalece a atuação do Estado.
O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é celebrado em 21 de janeiro, instituído pela Lei nº 11.635/2007, em homenagem à ialorixá Mãe Gilda. Denúncias podem ser registradas gratuitamente pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia, inclusive fins de semana e feriados.










