Pesquisadora da “parditude” diz ter sido expulsa da UFF após conflitos acadêmicos

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Beatriz Bueno - Foto: Blog Parditude

A produtora cultural e pesquisadora Beatriz Bueno afirma ter sido expulsa do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF) após sofrer perseguição e assédio no ambiente acadêmico. Desde 2024, ela era bolsista e desenvolvia pesquisa sobre o conceito de “parditude”, abordagem que propõe reconhecer a experiência social específica de pessoas pardas no Brasil.

Segundo Beatriz, sua linha de pesquisa e posicionamentos públicos sobre raça e gênero teriam provocado conflitos internos. Ela relata ter sido alvo de acusações de racismo, além de protestos dentro do campus da universidade, em Niterói (RJ). “Comecei a ficar mal psicologicamente e a tomar remédios psiquiátricos. Pedi um regime especial para cursar as disciplinas longe da universidade, porque eu estava com medo”, afirmou.

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Beatriz Bueno – Foto: Blog Parditude

A pesquisadora diz ainda que passou a sofrer constrangimentos em atividades acadêmicas e que sua permanência no programa foi condicionada à participação em eventos organizados por colegas. “Era nitidamente um circo voltado para me humilhar”, declarou. Sobre o desligamento, Beatriz afirma que foi comunicada em dezembro, durante uma reunião online. “Não recebi nenhuma ata ou comunicado formal por escrito sobre a decisão”, disse. Ela encaminhou denúncia à Ouvidoria da UFF e afirma não ter recebido retorno até o momento.

A universidade nega que o desligamento esteja relacionado ao tema da pesquisa. Em nota, a UFF informou que a decisão foi tomada pelo colegiado do programa, com participação de docentes, representantes discentes e da própria estudante, e que ocorreu por questões acadêmicas, especialmente relacionadas à participação e aprovação em disciplinas obrigatórias. A instituição afirma assegurar o direito ao contraditório e à ampla defesa.

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O caso ocorre em meio a um debate ainda pouco consolidado sobre o conceito de “parditude” no Brasil. A abordagem enfrenta resistência dentro do movimento negro, que vê a formulação como uma possível fragmentação racial capaz de gerar insegurança jurídica e colocar em risco políticas públicas já consolidadas, como as ações afirmativas.

Para Frei David, diretor da Educafro, organização dedicada à educação da população negra, a discussão precisa ser conduzida com cautela. “O Brasil sempre fugiu do debate racial”, afirma. Ele questiona o uso amplo do termo pardo e propõe diferenciações internas. “Há o pardo-preto, que sofre racismo constantemente; o pardo-pardo, que pode sofrer; e o pardo-branco, que nunca sofre racismo”, disse, ressaltando que interpretações imprecisas podem abrir margem para fraudes em políticas de inclusão. O ativista também aponta a ausência de pesquisas consolidadas que sustentem o conceito.

Outras lideranças do movimento negro afirmam não acompanhar o uso do termo. O ex-secretário do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Yuri Silva, declarou: “Sequer tenho conhecimento da utilização desse termo no movimento negro brasileiro. É uma novidade para mim”.

O debate permanece aberto, enquanto a pesquisadora busca esclarecimentos institucionais e a universidade sustenta que o desligamento seguiu critérios acadêmicos.

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