Celebrado em 8 de abril, o Dia Internacional dos Povos Ciganos foi criado durante o Primeiro Congresso Mundial Romani, em 1971, com o objetivo de dar visibilidade à história, à cultura e aos direitos dessas comunidades. No Brasil, a população cigana é estimada entre 800 mil e 1 milhão de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de levantamentos de órgãos federais.
Apesar dessa presença histórica, o povo romani segue entre os grupos mais invisibilizados do país. Os ciganos estão entre os 28 povos e comunidades tradicionais reconhecidos pelo Estado brasileiro, conforme o Decreto nº 8.750/2016, mas ainda enfrentam dificuldades no acesso a políticas públicas básicas, como educação, saúde, moradia e trabalho.
A presença cigana no Brasil remonta ao período colonial. Registros históricos apontam que, ainda no século XVI, pessoas ciganas foram trazidas ao país por Portugal, muitas vezes de forma forçada. A partir do século XVII, a Coroa portuguesa institucionalizou a deportação de ciganos para o Brasil como forma de punição, prática documentada em arquivos históricos do período.

Segundo o pesquisador e ativista cigano Aluízio de Azevedo, políticas de perseguição marcaram a trajetória dessas comunidades por séculos. “Portugal e Espanha proibiam os ciganos de falar sua língua, de exercer seus ofícios e até de permanecer por mais de 48 horas em um mesmo lugar. Esse histórico de repressão foi reproduzido no Brasil”, explica.
Esse processo histórico ajuda a entender por que o nomadismo, frequentemente associado à identidade cigana, em muitos casos foi resultado de imposições e não de escolha cultural.
A violência institucional também faz parte dessa trajetória. Há registros de ações policiais conhecidas como “correrias ciganas”, em que acampamentos eram invadidos e famílias obrigadas a fugir. Esses episódios ocorreram com maior intensidade até a década de 1970, mas, segundo lideranças, ainda há relatos recentes de abordagens violentas.
No presente, o racismo segue sendo uma das principais denúncias. “O preconceito e a discriminação nos afastam das oportunidades. Somos pessoas como qualquer outra, mas ainda somos tratados com desconfiança”, afirma Wanderley da Rocha, presidente da Associação Nacional das Etnias Ciganas.
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Além da discriminação cotidiana, a ausência de políticas públicas estruturadas é um dos principais desafios. Para Claudio Iovanovitchi, da Associação de Preservação da Cultura Cigana, a luta não é por privilégios. “Queremos acesso à educação, à saúde, à moradia, como qualquer cidadão, respeitando nossas especificidades culturais”, diz.
No cenário internacional, o termo “anticiganismo” tem sido cada vez mais utilizado para definir o racismo direcionado a esses povos. Organismos como o Conselho da Europa apontam que comunidades ciganas continuam entre as mais vulneráveis, com altos índices de pobreza, exclusão social e segregação.
No Brasil, especialistas destacam que a invisibilidade estatística ainda é um obstáculo. A ausência de dados detalhados dificulta a criação de políticas públicas eficazes e reforça desigualdades históricas.
O Dia Internacional dos Povos Ciganos, portanto, não é apenas uma celebração cultural, mas um marco de reivindicação por direitos. Em um país onde essa população pode chegar a 1 milhão de pessoas, o desafio segue sendo transformar reconhecimento em políticas concretas e combater o racismo estrutural que ainda marca a trajetória desses povos.










