Mobilização indígena garante revogação de decreto que permitia privatização das hidrovias amazônicas

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Depois de cerca de um mês de protestos contínuos, o movimento indígena conseguiu impor um recuo ao governo federal, que decidiu revogar o Decreto nº 12.600, responsável por incluir hidrovias da Amazônia no Programa Nacional de Desestatização. A medida interrompeu o processo que poderia resultar na concessão à iniciativa privada de trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.

O decreto previa a realização de estudos técnicos, ambientais e logísticos para viabilizar a concessão das hidrovias. Estavam incluídos o Rio Madeira, entre Porto Velho e Itacoatiara; o Rio Tocantins, entre Belém e Peixe; e o Rio Tapajós, entre Itaituba e Santarém. Desde a edição da norma, o movimento indígena das regiões afetadas passaram a se mobilizar contra o projeto, apontando riscos aos seus territórios e a impactos sobre populações ribeirinhas e quilombolas.

A mobilização se estendeu por cerca de 33 dias e incluiu protestos nos territórios, atos públicos e ações diretas. Indígenas de aproximadamente 14 etnias ocuparam instalações da empresa Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, em protesto contra iniciativas ligadas à dragagem do rio Tapajós, consideradas pelo movimento como etapa inicial de privatização da hidrovia.

O recuo do governo nas hidrovias ocorre em meio a um ciclo de concessões de infraestrutura em escala inédita. Levantamento realizado pelos ministérios dos Transportes e dos Portos e Aeroportos, a pedido da Folha de S.Paulo, mostra que, desde 1995, quando entrou em vigor a Lei das Concessões, foram realizados 160 leilões federais de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos no país.

De acordo com os dados oficiais consolidados no levantamento, quase um terço desse total (31%) está concentrado no período entre 2023 e 2025, correspondente ao atual mandato presidencial. O volume evidencia a centralidade das concessões na política de infraestrutura do governo e ajuda a contextualizar a disputa em torno das hidrovias amazônicas, cuja inclusão no Programa Nacional de Desestatização acabou revertida após a mobilização indígena.

O Decreto nº 12.600 seria responsável por incluir hidrovias da Amazônia no Programa Nacional de Desestatização – Foto: Movimento Tapajós Vivo.

No início do mês, o governo chegou a propor a suspensão do decreto, mas a medida foi considerada insuficiente pelas lideranças indígenas, que mantiveram os protestos até a revogação integral da norma. A decisão foi confirmada após reunião no Palácio do Planalto entre representantes indígenas, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara.

Durante o encontro, as lideranças reiteraram preocupações com os efeitos das obras sobre os territórios tradicionais e defenderam o cumprimento da consulta livre, prévia e informada, prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Também foi considerada a situação das famílias indígenas acampadas há mais de um mês em condições precárias durante o período de mobilização.

O Ministério de Portos e Aeroportos informou que a revogação será publicada no Diário Oficial da União. Até o momento, o governo não anunciou medidas substitutivas nem novos atos administrativos relacionados às hidrovias incluídas no decreto derrubado.

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Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

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