Um entregador precisa de mais de 15 pedidos por dia para superar a linha da pobreza

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Uma jornada de 40h semanais o entregador recebe entre R$ 1.980 e R$ 3.039 - Foto: Pexels

Um novo estudo reacende o alerta sobre a precarização e a desigualdade que estruturam o trabalho por aplicativos no Brasil e na América Latina. Segundo o Coeficiente Médio de Alcance de Pedidos (APP), lançado pela Fundação Encuentro, um entregador precisa realizar mais de 15 pedidos por dia, todos os dias do mês, apenas para ultrapassar a linha da pobreza. A métrica considera o volume de viagens necessárias para alcançar o valor da Cesta Básica Total de uma família de quatro pessoas.

Na Argentina, onde o indicador foi desenvolvido, um entregador precisou, em setembro de 2025, completar 461 pedidos mensais para garantir o básico. O dado expõe um cenário de informalidade e insegurança econômica que também se repete no Brasil, país onde a força de trabalho das plataformas digitais é majoritariamente composta por homens negros, jovens e moradores das periferias urbanas.

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Uma jornada de 40h semanais o entregador recebe entre R$ 1.980 e R$ 3.039 – Foto: Pexels

Um levantamento do Cebrap, divulgado em 2023, mostrou que a renda dos entregadores brasileiros varia conforme as horas trabalhadas e os períodos de ociosidade impostos pelos algoritmos. Considerando custos com combustível e manutenção, os ganhos líquidos estimados foram:

  • Jornada de 20h semanais: entre R$ 807 e R$ 1.325;
  • Jornada de 40h semanais: entre R$ 1.980 e R$ 3.039.

Mesmo trabalhando o equivalente a uma jornada integral, muitos profissionais não alcançam o valor necessário para suprir as despesas básicas mensais. A instabilidade é agravada por fatores externos como clima, demanda, dinâmica de preços e mudanças no algoritmo, variáveis que fogem totalmente do controle dos trabalhadores.

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O APP traduz essa vulnerabilidade por meio de equivalências concretas: manter uma família típica demanda 461 pedidos, pagar um aluguel médio exige 271, e encher um tanque de gasolina representa apenas duas entregas.

A falta de pisos salariais, contratos formais e referências de remuneração dificulta a proteção social dessa população, e coloca os trabalhadores negros em posição ainda mais frágil diante de um mercado que, historicamente, os empurra para atividades de baixa segurança econômica.

Para especialistas, o indicador é um passo para dar visibilidade ao real esforço exigido dos entregadores. Mas ele também confirma o óbvio: enquanto as plataformas crescem, quem pedala, dirige ou caminha pelas cidades segue longe de acessar direitos básicos e oportunidades reais de mobilidade social.

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