A frequência com que homens ejaculam pode influenciar diretamente a qualidade do esperma e as chances de fertilização, segundo estudo publicado na revista científica Proceedings B, da Royal Society. Mas, além dos fatores biológicos, pesquisas indicam que determinantes sociais como raça e classe também impactam a fertilidade masculina, evidenciando desigualdades no acesso à saúde e nas condições de vida.
A pesquisa analisou cerca de 150 estudos, incluindo mais de 54 mil participantes humanos, e identificou que o armazenamento prolongado do esperma no corpo está associado a danos no DNA, aumento do estresse oxidativo e redução da motilidade dos espermatozoides.
“O armazenamento prolongado pode ser especialmente prejudicial, já que os espermatozoides têm capacidade limitada de reparo”, explicou a pesquisadora Rebecca Dean, da Universidade de Oxford.

Os resultados contrariam a crença de que períodos mais longos de abstinência melhorariam a fertilidade. Embora a abstinência possa aumentar a quantidade de esperma, isso não significa necessariamente melhor qualidade.
Segundo o estudo, homens que ejaculam até 48 horas antes de fornecer uma amostra apresentam melhores resultados em tratamentos como fertilização in vitro (FIV), em comparação com aqueles que seguem recomendações tradicionais de abstinência entre dois e sete dias.
Desigualdade social impacta qualidade do esperma
Além da frequência de ejaculação, estudos internacionais mostram que a fertilidade masculina também é afetada por fatores estruturais. Pesquisas reunidas em bases como ScienceDirect indicam que homens que vivem em áreas com maior privação socioeconômica apresentam pior qualidade seminal.
De acordo com esses estudos, a cada aumento no índice de vulnerabilidade da região, há uma redução média de cerca de 4 milhões de espermatozoides móveis. Essas áreas, em diferentes países, concentram maior proporção de população negra, refletindo desigualdades históricas e estruturais.
A classe social também influencia diretamente a saúde reprodutiva. Um estudo publicado na revista Fertility and Sterility aponta que homens de baixa renda estão mais expostos a fatores que prejudicam a fertilidade, como poluição, calor excessivo no trabalho e substâncias químicas que afetam o sistema endócrino.
Além disso, o estresse crônico provocado por insegurança financeira e racismo tem impacto direto nos níveis hormonais e na produção de esperma. Segundo análises disponíveis na ScienceDirect, homens de áreas mais pobres têm até 13% menos chance de alcançar um nascimento vivo, mesmo quando acessam tratamentos de fertilidade.
LEIA TAMBÉM: Menopausa pode aumentar em 40% riscos de doenças cardíacas, mulheres negras são as mais afetadas
O acesso às tecnologias de reprodução também é marcado por desigualdade. Dados do National Institutes of Health (NIH) indicam que homens de baixa renda têm entre 60% e 70% menos probabilidade de utilizar técnicas como fertilização in vitro ou inseminação intrauterina, em comparação com homens de maior renda.
Quando conseguem acessar esses serviços, esse grupo também realiza menos ciclos de tratamento, devido ao alto custo, o que reduz as chances de sucesso.
No Brasil, pesquisas de instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontam que o racismo institucional e a desigualdade de renda influenciam diretamente quem consegue acessar os direitos reprodutivos.
Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça tratamentos de reprodução assistida, a oferta é limitada e desigual entre regiões, além de enfrentar longas filas de espera. Esse cenário impacta principalmente homens negros e de baixa renda.
Fertilidade masculina vai além do fator biológico
A infertilidade masculina está presente em cerca de 40% a 50% dos casos de casais com dificuldade para engravidar. Ao mesmo tempo, estudos recentes apontam uma queda global na qualidade do sêmen e aumento da demanda por tratamentos.
Diante desse cenário, especialistas destacam que a fertilidade masculina não pode ser analisada apenas sob a ótica biológica. Fatores sociais, econômicos e raciais também desempenham papel central na saúde reprodutiva.
As evidências indicam que, além de hábitos individuais, como a frequência de ejaculação, as condições de vida e o acesso a direitos básicos continuam sendo determinantes para as chances de reprodução.









