Visibilidade nas redes não garante renda para artistas periféricos, aponta estudo

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Engenheira e pesquisadora Camila Santos, fundadora da Margem Viva - Foto: Divulgação

O crescimento das plataformas digitais ampliou a visibilidade de artistas e produtores culturais no Brasil, mas nem sempre esse alcance se transforma em renda estável. É o que aponta um estudo sobre economia criativa digital, que analisou como criadores periféricos conseguem, na prática, monetizar suas produções.

A pesquisa indica que há um descompasso entre circulação e retorno financeiro. Mesmo com obras alcançando grandes públicos em plataformas como streaming e redes sociais, a renda gerada costuma ser instável e insuficiente para garantir autonomia econômica.

Segundo a pesquisadora Camila Santos, responsável pelo estudo, a ideia de que a visibilidade resolve o problema financeiro não se sustenta. “A visibilidade pode crescer enquanto a renda continua instável”, afirma.

Engenheira e pesquisadora Camila Santos, fundadora da Margem Viva – Foto: Divulgação

Na prática, muitos artistas dependem mais de trabalhos diretos, como apresentações, publicidade e serviços criativos, do que dos ganhos com suas próprias obras. Esse tipo de renda, chamada de ativa, exige presença constante e não garante estabilidade. Já os rendimentos ligados a direitos autorais, como royalties e execuções em plataformas, aparecem de forma irregular ou residual.

O estudo também chama atenção para a cadeia de intermediários que existe entre quem cria e quem consome o conteúdo. Distribuidoras, gravadoras, editoras e agregadores participam da divisão dos valores gerados, o que reduz a parcela que chega ao artista. Em alguns casos, a remuneração pode representar uma fração mínima do total produzido pela obra.

Outro desafio apontado é a falta de transparência e acesso à informação. Muitos criadores relatam dificuldade para entender como os valores são calculados e distribuídos, além da ausência de contratos claros e documentação adequada. Esse cenário dificulta o controle sobre a própria produção e impede o planejamento financeiro.

O estudo também destaca que a desigualdade estrutural impacta diretamente quem cria a partir das periferias. Embora essas produções tenham forte influência na cultura brasileira e movimentem a indústria criativa, os ganhos financeiros seguem concentrados em outros agentes do mercado.

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Casos recentes reforçam essa realidade. Mesmo artistas com grande impacto cultural e histórico enfrentam dificuldades para receber pelos direitos de suas obras, evidenciando que o problema não está apenas na visibilidade, mas na forma como o valor é distribuído.

A pesquisa propõe que o debate sobre economia criativa vá além do acesso às plataformas e inclua questões como transparência, formação e garantia de direitos autorais. Para especialistas, ampliar a circulação de conteúdo sem garantir condições justas de remuneração mantém criadores em situação de vulnerabilidade.

O cenário revela que, embora as plataformas tenham ampliado o alcance da produção cultural, ainda existe um desafio estrutural para transformar visibilidade em renda, especialmente para artistas periféricos, que seguem produzindo valor sem acessar, na mesma proporção, os resultados econômicos de seu trabalho.

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