Comissão Interamericana aponta chacina em operação policial no Rio e cobra investigação

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A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) afirmou que a Operação Contenção, realizada em outubro de 2025 na Zona Norte do Rio de Janeiro, deve ser investigada sob a hipótese de chacina e cobrou a responsabilização de toda a cadeia de comando envolvida no planejamento e execução da ação policial. O relatório divulgado nesta sexta-feira aponta indícios de execuções extrajudiciais, tortura e graves falhas nas investigações sobre as mortes.

A operação foi conduzida pelo governo de Cláudio Castro e ocorreu principalmente nos complexos da Penha e do Alemão. Dados oficiais registram pelo menos 122 mortes, sendo 117 civis e cinco policiais, além de mais de cem pessoas presas. Apenas 15 dos mortos estavam entre os alvos das ordens judiciais que autorizaram a ação.

O documento afirma que a elevada letalidade não pode ser considerada um critério de sucesso operacional e classificou como chacina. A Comissão condenou as mortes registradas durante a operação e declarou: “A Comissão condena as mortes ocorridas no contexto da Operação Contenção e conclui que a manutenção deste paradigma não constitui uma opção viável nem legítima”.

A CIDH visitou o Brasil entre 1º e 5 de dezembro de 2025 para analisar o caso. O relatório reúne depoimentos e informações que descrevem corpos com disparos na cabeça, nas costas, na boca, nas axilas e no tórax, em circunstâncias incompatíveis com confrontos armados. Também foram relatados casos de pessoas vistas sob custódia policial e encontradas mortas posteriormente, além de indícios de amarras, tiros à queima-roupa e outros sinais de execução.

O documento afirma que a elevada letalidade não pode ser considerada um critério de sucesso operacional e classificou como chacina – Foto: Andre Melo/Notícia Preta.

O órgão afirmou que as investigações precisam apurar responsabilidades penais e administrativas tanto dos autores diretos quanto dos responsáveis pela decisão e supervisão da operação. A Comissão pediu investigações “minuciosas, independentes e imparciais” e sugeriu que os procedimentos sejam federalizados para garantir autonomia.

A análise também aponta falhas graves na preservação de provas e na condução das perícias. Locais de mortes não teriam sido isolados adequadamente, corpos teriam sido removidos sem os procedimentos necessários e armas de agentes públicos não foram submetidas a exames balísticos imediatos.

O relatório critica ainda o modelo de segurança pública baseado em operações de alta letalidade. Entre 2014 e 2024, mais de 60 mil pessoas morreram em ações das forças de segurança no Brasil sem redução sustentada da criminalidade. Para a Comissão, esse padrão gera violações de direitos humanos e não enfrenta as estruturas econômicas que sustentam o crime organizado.

Ao final, a CIDH afirmou que intervenções policiais extensas e violentas não constituem resposta eficaz ao crime organizado e reforçam ciclos de violência e impunidade nas periferias e favelas.

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Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

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