Um aumento de 50% no preço de alimentos ultraprocessados poderia evitar até 236 mil mortes e 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas no Brasil ao longo de 20 anos. A projeção faz parte de um estudo publicado na revista científica American Journal of Preventive Medicine, com base em modelagem matemática aplicada ao cenário brasileiro.
Atualmente, 57% dos adultos no país vivem com sobrepeso. Mantida a tendência, esse percentual pode chegar a 75% até 2044. No cenário de taxação mais elevada simulado pelos pesquisadores, a prevalência cairia para 50%.
A pesquisa utilizou dados nacionais de consumo alimentar e saúde pública e partiu do conceito de elasticidade-preço, quanto o consumo tende a cair quando o valor sobe. A partir dessa redução projetada, os pesquisadores estimaram impactos no peso corporal médio da população e, posteriormente, na incidência de doenças como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença renal crônica e alguns tipos de câncer associados ao excesso de peso.

Segundo Eduardo Nilson, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília e do Nupens/USP, o modelo adotado foi conservador. O estudo considerou apenas doenças mediadas pelo excesso de peso, sem incluir outros possíveis efeitos negativos dos ultraprocessados independentemente do índice de massa corporal.
O debate ganha relevância porque o Brasil aprovou recentemente o chamado Imposto Seletivo, que passará a valer a partir de 2027. A medida incidirá sobre produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas. A inclusão de ultraprocessados como categoria ampla, como biscoitos recheados, salgadinhos, embutidos e macarrão instantâneo, foi discutida durante a reforma tributária, mas não avançou.
Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018), do IBGE, indicam que cerca de 20% das calorias consumidas no Brasil já vêm de ultraprocessados, percentual maior entre crianças e adolescentes. Pesquisas recentes apontam que mulheres pretas ou pardas, com menor escolaridade e renda, estão entre os principais grupos consumidores desses produtos.
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Estudos epidemiológicos também mostram que populações de baixa renda e residentes em “desertos alimentares”, áreas com pouco acesso a alimentos frescos, dependem mais de produtos industrializados de baixo custo. A inflação recente tem ampliado esse movimento, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Além da redução de mortes e doenças, os pesquisadores apontam que a taxação poderia gerar economia bilionária ao sistema público de saúde, ainda que os valores exatos não tenham sido detalhados na publicação.
O estudo reforça que políticas fiscais voltadas à alimentação impactam diretamente a saúde pública e que a definição das alíquotas do Imposto Seletivo poderá influenciar os resultados futuros no país.









